A errância: para além do julgamento e da culpabilização no erro
É uma grande ferida narcísica isso de "não ser senhor na sua própria casa". Essa frase foi dita por Freud ao explicar que não temos controle dos conteúdos inconscientes, estes mesmos que estão atuando o tempo todo.
E já começo falando isso porque, como sabemos, "errar é humano" mas os humanos, nesse caso, parecem ser somente os outros. Ninguém gosta do erro. Não é legal e agradável.
Talvez por isso o erro seja tão negativado na cultura. A palavra "erro" já vem carregada de um peso excruciante, sendo embebida de culpa, julgamento e punição. É imperativo na cultura a lógica do não errar. O equívoco e as falhas são tapados, evitados, se precisarem até maquiados.
Mas esse texto é sobre a positividade intrínseca do erro. Porque os erros continuam acontecendo, e mais do que isso, continuam criando algo de novo.
Porque para não errarmos teríamos que saber de tudo, de nós mesmos, dos outros, das coisas, inclusive de coisas no futuro - e isso está na ordem do impossível.
A vida é imprevisível, rasgante; e já vimos que não somos tão donos assim da nossa "casa" - da nossa vida psíquica (bom relembrar).
Então, como não erraríamos, se temos que nos virar frente ao trauma de habitar o mundo, frente ao real?
E até mesmo num rasgo, algo se abre: esse é o efeito da errância. Mesmo que fuja do que foi pré-determinado por uma idealização, é possível caminhar pelo inesperado que aparece.
O movimento de errar tem a potência da invenção. E que bom, porque somos seres estruturalmente errantes.
Morgana M Medeiros
CRP 06/140543